Objetivo

Este blog tem por finalidade reunir criações literárias de escritores independentes. O grupo que aqui se apresenta teve início com a Oficina Literária ministrada por Diego Petrarca, mas esta aberta a outros que por ventura quiserem ter seus textos publicados.
Mostrando postagens com marcador Rafael Muniz Espíndola. Mostrar todas as postagens
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domingo, 1 de janeiro de 2012

Sentidos

No cachorro,
Na criança que mia,
No ranger de dentes,
No cafungar esquecido,
No paladar inaudível,
Na saliva seca socando a carne atravessada,
Nos olhos cegos que se cruzam e não dizem nada,
No breu do dia que a luz não chega,
Escuto o mundo,
Na falta luz.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Casa na árvore

Tu, velho anduco, de cabelo ralo, esbelta postura franzina, braços cruzados, de costume cansado e nostálgico balbuciador de  lamúrias incompreensíveis, como um cão que rosna para o próprio rabo, decidiste, sabe-se lá o porquê, construir na árvore, uma morada, decidiste, assim, como te decides trocar de gravata naquelas ocasiões em que o conviva já não respira mais.
Em uma pequenina árvore, aquela sequóia, não, não esta, aquela, esta, esta, isso, nessa mesma, a menorzinha, escolheste teu alicerce para edificar tuas incompreensões e  poupar-te o trabalho da escada, cansar-te-ia demais essa escada (tu, velho, gostas de resultados rápidos).

Como todos os outros, aqueles proletários que constroem para poder gozar melhor da vida e deitar as preocupações no consolador da noite (o travesseiro), este velho não o era.

E ao passo da tua escolha começaste a construção, uma betoneira orgânica era a tua cabeça, lembrava-te do presente, passado e futuro ou era o presente do passado futuro que te fazia abrir a boca sem querer e perguntar sem responder?

Perguntas ou respostas sem respostas ou perguntas, findou a morada sobre a pequenina sequóia.

Não precisaste muito esforço para entrar na tua morada, apenas um leve alçar de joelho.

Adormeceste no chão mesmo sem te dar conta das horas a fio em que trabalhaste. Acordaste, ora, ora, sem nenhuma dorzinha. Poste a fuça pra fora da porta, ainda bastava um baixar de joelho para saíres da morada. Não aguentas esperar tanto?

Não. Não aguentou esperar tanto.

Te trancaste na morada até que a pequenina sequóia estivesse em condições de te fazer dar mais que um salto para sair-te daí e contar a todos tua façanha, pequena façanha essa, grande arrogância tua. 

Adormeceste um ano ou dois? Eram mais, velho.

Poste a cabeça para fora depois de tantos anos e tua barba grisalha arrastada no teu assoalho e tuas costas curvas atrapalham-te a caminhada, a barba, parava em cada farpa as costas doíam a cada passo. Poste a cabeça pra fora.

Não vias o chão em que pisaste a última vez, só enxergavas neblina e uns poucos galhos da tua sequóia. Não percebeste, mas dormistes muito tempo. Percebe, meu velho, tu estás mais próximo do céu.

sábado, 26 de novembro de 2011

À benção

 Queres saber, filho, o que são as estrelas?  Estrelas são pequenos leds cravados nesta grande placa que alguns chamam de céu.  E o sol?  Bueno, o sol é uma grande lâmpada incandescente cujo tungstênio nunca morre.  Aliás, filho, parabéns pelo teu 30º aniversário.   

(Rafael Muniz Espíndola)

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

ÀS MANIAS - do pobre vulcão

Sim, caiu de uma pequena árvore, aquele pobre vulcão.
Vulcão sulcado...
Veias já lhe aparecem...
Perdeu o verde viçoso que lhe era natural...
Pobre vulcão, cai, e ainda pisoteado, insiste em fazer parte D'aquilo...
Já não nos ajuda mais, ajuda a ficar no chão, aquele pobre vulcão...
ajuda a forrar uma mansão de um sabiá, a ficar ao pé de um jacarandá...
não ajuda em muita coisa o pobre vulcão...
Enquanto cai o pobre vulcão, perde a seiva alaranjada...
e seca antes de encostar o chão
pobre vulcão...

(Rafael Muniz Espíndola)

sábado, 17 de setembro de 2011

Do embaraço do Traço

A mão treme o traço o traço treme a linha a linha rasga papel papel conta história traçada pela linha que treme a mão acariciando a mania de por o pé no chão embaraçando o traço volto aos pés descalços sob o motivo da linha do embaraço do traço__________________

domingo, 21 de agosto de 2011

Vermelho-ei

Quando o soneto vermelho dos meus olhos
                                                              Não puder exalar o perfume das serpentes,
vou conciderar-me inapto às atividades pré-destinadas
                                                             Assim como o ferreiro que não tem fogo para fundir o ferro
e o seu próprio calor não o faz possível.
                                                            Virei EU com o fogo e com o vidro cheio.
vermelho-ei, no entanto, até a última martelada.

Rafael Muniz Espíndola

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Trilhada

Docemente fui ao inferno,
Amargamente subi aos céus.
Do ato de inventar mentiras para se acreditar
fundi o aço...
E lá de cima vê-se,
não digo o quê para não perder a boa prosa,
mas a falta de que o rio passe pelo leito entreaberto
e que meus olhos fechem.
Na angústia de não poder mexer-me,
devencilho-me de todas as sensações mundanas...
E rio, como o rio que não perpassa, de todos.
Pontos postos ou mal postos
Desci novamente
Fiquei no limbo...
in loco daqueles de quem outrora eu ria, o veneno crônico.
Verborragicamente paro por aqui, esgoto-me, mas não ponho-me no lixo,
E rio, agora este que me transpassa sem notas nem acordes,
de mim mesmo...




Rafael Muniz Espíndola

domingo, 24 de julho de 2011

CRIARTE

No lugar certo, na hora certa
a cor certa no traço certo
do limiar tecido traçado pelo pensamento
inconvencionalmente convencional
acomodando-se na poeira do olho
passado, rastreado, arrastado
sobre coisa alguma,
!CRI-AR-TE!

terça-feira, 21 de junho de 2011

Ócio

Transcendo quando os fecho
Abro-os
Tô preso
Palavras não ditas
Vide-as!
Sem fronteiras
Preso no olho
no pensamento
caneta
papel
tinta.


(Rafael Muniz Espíndola)

sábado, 21 de maio de 2011

Expurgando Algo

Algo não diz tudo
Não vocifera,
É amena,
Preconceituosa,
Não especifica.
Deve ser enforcada na boca dos indecisos e decisos.
Não é visível e não seria difícil esquecer algo,
Não sabemos o que o é.
Apaguemos,
Arranhemos,
Deixemos no esgoto.
Não vemos mesmo.
Então damos extrema unção
E empalemos algo
no instante de ontem.

(Rafael Muniz Espíndola)

Leafard

Tímida, isolada, erguida em meados do século passado fora bombardeada, 
atacada e saqueada. 
Seus monumentos retrógrados inspirados por sua mãe, 
destroçados.
O ditador, esquecido, enterrado com os mortos, ainda vive.
Os destroços tombados, preservados, digladiam com a degradação latente de seu ânimo.
Do centro vê-se montanhas 
embebidas num vasto lençol azul, 
uma hora que outra choram sem o notar da meteorologia, 
inundando as pretéritas construções, 
bóias no limiar das lágrimas montanhescas.
Pontes rasgam a face, 
alçam vôo entre os cabelos bruxuleantes,
natural do lugarejo...

(Rafael Muniz Espíndola)